quarta-feira, 29 de abril de 2009

Minha Casa, Minha Vida II

 

O ambicioso programa do governo federal continua a fomentar cada vez mais o mercado imobiliário. Além da Caixa Econômica Federal, o Banco do Brasil também anunciou a sua participação com previsão de financiamento de R$ 500 milhões.

Segundo dados do Estado de Minas, a Caixa já registrou 221 projetos protocolados, o que representaria uma previsão de 43 mil moradias. Realizando um cálculo rápido, tendo-se em vista o valor de R$ 749,09 para o CUB/m2 e a média de 40 metros quadrados para cada casa, encontramos que o valor previsto para o financiamento das 43 mil moradias é da ordem de R$ 1,2 bilhão. Nada mal, como forma de impulsionar o mercado, mas praticamente insignificante se comparado com o que foi gasto pelo Sistema Brasileiro de Empréstimo e Poupança (SBPE) nos últimos anos.

 

SBPE

Anos

Contratações

R$ Milhões

2003

2.218

2004

3.002

2005

4.852

2006

9.340

2007

18.283

2008

30.049

 

Entretanto, a verdadeira dimensão da ambição deste programa está no número de unidades a serem financiadas. Segundo a Caixa Econômica Federal, a previsão é de que sejam destinadas 400 mil moradias para a faixa salarial de 0 a 3 salários mínimos, 400 mil de 3 a 6 salários mínimos e 200 mil unidades para a faixa de 6 a 10 salários mínimos; totalizando 1 milhão de casas. Muito acima do que vem sendo praticado ultimamente através do SBPE.

SBPE

Anos

Unidades Financiadas

2003

36.480

2004

53.826

2005

61.121

2006

113.873

2007

195.900

2008

299.746

 

O ponto interessante aqui é que o programa Minha Casa, Minha Vida será operado simultaneamente com todos as outras opções de financiamento já oferecidas pela Caixa Econômica Federal. Dessa forma, espera-se um acréscimo em torno de R$ 15 bilhões.

Sem dúvida, uma bela ajuda para o setor. Entretanto, devemos lembrar que o projeto encontra-se ainda em sua fase inicial; o que torna muito difícil e imprevisível qualquer projeção.

Mais uma vez, vamos esperar para ver no que vai dar.

terça-feira, 28 de abril de 2009

Minha Casa, Minha Vida

 

O objetivo inicial deste blog era permitir que eu pudesse expor o meu pensamento sobre o mercado imobiliário e a interação deste com o mercado financeiro. A proposta aqui era construir ferramentas que permitissem um emlhor entendimento de seu funcionamento.

Entretanto, resolvi que, entre uma discussão e outra, seria interessante apresentar colocações diferentes a respeito do que acontece em ambos os mercados. Talvez estas exposições nos ajude a entender a simbiose que existe nessa relação.

E porque não começar com o fenômeno chamado “Minha Casa, Minha Vida”? O programa lançado pelo governo federal no último dia 25 de março, tem a pretenção de construir 01 milhão de casas nos próximos anos. O efeito imediato deste novo pacote governamental foi um aumento significativo das ações de empresas ligadas ao mercado imobiliário. Tomando-se como base o IMOB / Bovespa, temos a seguinte situação:

 

IMOB - Bovespa

Ação

Empresa

25 mar
R$

27 abr
R$

Variação
%

ABYA3 ABYARA

1,62

2,69

66,05

AGIN3

AGRA INCORP

1,45

2,32

60,00

BRML3

BR MALLS PAR

14,40

15,35

6,60

BISA3

BRASCAN RES

2,00

3,64

82,00

CCIM3

CC DES IMOB

2,08

4,52

117,31

CCPR3

CYRE COM-CCP

7,28

865

18,82

CYRE3

CYRELA REALT

8,67

13,85

59,75

GFSA3

GAFISA

11,10

17,49

57,57

INPR3

INPAR S/A

1,60

2,15

34,38

MRVE3

MRV

13,39

19,90

48,62

PDGR3

PDG REALT

13,16

18,85

43,24

RSID3

ROSSI RESID

3,53

6,51

84,42

TCSA3

TECNISA

3,25

5,02

54,46

TEND3

TENDA

1,80

2,95

63,89

 

Em praticamente um mês (22 pregões) a menor variação foi da ação BRML3 - 6,60%, enquanto a maior foi da CCIM3, com impressionantes 117,31%.

Como o programa ainda está no seu estágio inicial, com uma crescente procura pela população de informações e inscrições, ainda não sabemos ao certo a sua verdadeira influência no mercado imobiliário – a não ser o efeito que o seu lançamento causou na Bovespa. Entretanto, por enquanto, esses dados ainda são inconclusivos no que se refere ao impacto real do programa.

O que eu proponho é um acompanhamento sistemático dos humores do mercado financeiro com relação ao IMOB, bem como dos índices do Custo Unitário Básico (CUB/m2) identificados pelo SindusCon de cada estado. Para esse último, devido a dificuldade de se obter dados consistentes e constantes, serão usados os valores do Distrito Federal, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Paraíba e São Paulo.

 

CUB / m2

Brasil

Data

R$

Varição

%

mar/07

614,62

-

abr/07

620,41

0,94

mai/07

630,05

1,55

jun/07

632,30

0,36

jul/07

634,09

0,28

ago/07

638,46

0,69

set/07

638,54

0,01

out/07

643,73

0,81

nov/07

648,00

0,66

dez/07

655,61

1,18

jan/08

661,00

0,82

fev/08

661,85

0,13

mar/08

663,40

0,23

abr/08

663,80

0,06

mai/08

681,68

2,69

jun/08

684,05

0,35

jul/08

697,10

1,91

ago/08

716,27

2,75

set/08

728,90

1,76

out/08

730,93

0,28

nov/08

735,09

0,57

dez/08

735,01

-0,01

jan/09

740,63

0,76

fev/09

744,59

0,54

mar/09

749,09

0,60

 

 

03-09 - cub evolucao

 

03-09 - cub variacao

 

Quando consideramos a varição dos últimos 12 meses, temos a seguinte informação:

 

CUB / m2

Brasil

últimos 12 meses

Período

R$

Variação
%

mar/08

663,40

7,94

abr/08

663,80

6,99

mai/08

681,68

8,20

jun/08

684,05

8,18

jul/08

697,10

9,94

ago/08

716,27

12,19

set/08

728,90

14,15

out/08

730,93

13,55

nov/08

735,09

13,44

dez/08

735,01

12,11

jan/09

740,63

12,05

fev/09

744,59

12,50

mar/09

749,09

12,92

 

 

03-09 - cub variacao 12 meses

 

É fácil perceber que o reajuste relativo aos últimos 12 meses vem apresentando uma crescente constante, com o ápice em outubro de 2008, mês onde o Ibovespa registrou quedas de 25,19% e o IMOB queda de 37,57%.

A tendência, caso o programa Minha Casa, Minha Vida realmente saia do papel e estimule o mercado imobiliário é que o preço do CUB/m2 continue a subir, bem como a variação dos últimos 12 meses. Já para o mercado financeiro, espero que o preço das ações ainda sofra uma grande pressão especulativa sem, porém, proporcionar grandes ganhos como vistos no último mês. De qualquer maneira, acredito que a tendência de alta ainda deva se manter caso o programa tenha sucesso e estimule o mercado imobiliário.

Vamos continuar monitorando e ver como os mercados se comportam.

domingo, 26 de abril de 2009

O Papel da Informação

Depois de muito tempo sem postar, resolvi voltar com o blog discutindo um assunto deveras importante e altamente polêmico: o papel da informação para os investidores, seja no mercado financeiro ou no imobiliário.

Para o mercado financeiro a fonte de informação mais confiável e mais utilizada pela grande maioria dos investidores é, sem dúvida, os preços dos ativos apurados nas Bolsas de Valores ao redor do mundo. Entretanto, como a informação não representa uma decisão em si; o mercado é regido por diferentes expectativas. Isso quer dizer que, embora dois investidores diferentes utilizem a mesma metodologia e a mesma fonte de dados, os resultados apurados podem ser completamente distintos. Assim, quando alguém vende um ativo ele espera que seu preço cai, e quem compra espera que seu preço suba.

Porém, diferente do que acontece com o mercado financeiro, não é possível acompanhar os movimentos do mercado imobiliário com a mesma "facilidade". Sem dúvida, existem algumas tentativas importantes para que se preencha esse vácuo, mas todas esbarram em um mesmo entrave: a qualidade das informações básicas.

Não quero falar aqui sobre as diferentes metodologias aplicadas em índices diversos. Acredito que eles podem ser muito úteis, desde que se tenha em mente que a sua correta aplicação depende enormemente da compreensão de como aqueles números fantásticos são encontrados. Tomemos o exemplo do índice Case-Shiller, calculado pela Standard & Poor`s.

Este índice, largamente utilizado nos Estados Unidos, é restrito para residências unifamiliares usadas sem, porém, considerar informações subjetivas como tipo, tamanho ou mudanças nas características específicas das casas. A metodologia utilizada nesse índice é o repeat sales method, ou "método de vendas repetidas". Nesse caso os dados referentes às residências só serão usados caso a mesma tenha sido vendida no mínimo duas vezes.

Segundo a S&P, os fatores que determinam a demanda, oferta e valor imobiliário não são iguais quando se considerada diferentes tipos de propriedades. Consequentemente, a dinâmica do preço destes diferentes tipos de ativos variam muito dentro de um mesmo mercado, especialmente durante períodos de aumento de volatilidade. Logo, com o volume de vendas destes ativos imobiliários flutuando, os índices que apuram um mercado segmentado se tornam mais precisos.

Assim, levando-se em consideração que o índice Case-Shiller realmente representa a variação do valor para as residências unifamiliares, algumas conclusões podem ser retiradas do gráfico abaixo.

 

grafico 01

 

Correndo-se o risco de parecer demagogia ou hipocrisia, podemos avaliar que o gráfico acima "previa" ou pelo menos apresentava uma tendência com relação ao mercado financeiro. A lógica aqui é simples: sabia-se que os financiamentos hipotecários estavam sendo concedidos inadivertidamente e em uma velocidade incrível, o que incluia os empréstimos à clientes considerados subprime, ou com alto risco de inadimplência. Nesse contexto, o lastro de um sem número de ativos imobiliários eram os financiamentos hipotecários - os derivativos. Pois bem, estes empréstimos tinham como fator de reajuste o valor dos ativos imobiliários e a taxa básica de juros americana - a taxa Selic ianque - que é uma taxa variável.

Pelo gráfico é possível vislumbrar que em meados de 2006 o valor dos ativos imobiliários atingiu seu ápice e desde então entrou em um declínio acentuado. No começo de 2007 já era possível identificar que a queda no valor das residências unifamiliares americana seria forte e praticamente irreversível. Vários analistas apontaram para essa possível bolha que havia se formado e que um estouro seria iminente. Outros, obviamente, julgavam exatamente o contrário, baseando-se no fato de que os empréstimos subprime eram irrisórios e representavam apenas uma pequena parte do total. Para aqueles que desejarem saber um pouco mais sobre a situação das hipotecas americanas recomendo conhecer os dados que o FED disponibiliza - http://www.federalreserve.gov/econresdata/releases/mortoutstand/mortoutstand20090331.htm.

De qualquer maneira, todas as previsões tiveram um fim quando o FED consolidou os juros em 5,25% em meados de 2006, depois de um longa sequência de aumentos que havia começado em 2004. Como as hipotecas eram reajustadas por essa taxa variável e pelo preço dos imóveis, o aumento dos juros teve um efeito devastador. A partir dai, o castelo de cartas simplesmente desmoronou.

O que podemos concluir a partir dos dados apresentados acima é que a informação compõe um variável significativa no entendimento de mercados e tendências. No caso específico desta crise o mercado imobiliário americano teve papel preponderante devido a sua simbiose com o mercado financeiro. Mas e quanto ao entendimento do próprio mercado imobiliário? Seria possível que ferramentas fossem criadas para facilitar o entendimento, a indentificação de tendências e o direcionamento de investimentos para o mercado brasileiro?

Espero poder responder estas perguntas nos próximos posts.