terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Incerteza

Há tempos venho falando em escrever um post sobre Nassim Taleb e seu trabalho, principalmente o livro "A Lógica do Cisne Negro". Esse livro causou um grande alvorouço, não só por encarar a influência da incerteza com relação às questões financeiras, mas também por expor toda a fragilidade e ineficiência dos métodos estatísticos disponíveis.

A incerteza, conforme encarada pela maioria dos estudiosos e profissionais da área financeira e da estatística, é, na verdade, o estudo das probabilidades. Resumidamente, procura-se "prever" o futuro a partir da esperança que dados passados nos permitam vislumbrar padrões distintos que serão encarados como probabilidades para o acontecimento de um determinado evento.

O assunto é bastante complicado e não pretendo aqui outra coisa senão enfatizar aquilo que considero "utilizável" e destacar os erros embutidos nos processos de elaboração e detecção das probabilidades associadas aos eventos. Assim, antes de mais nada, precisamos entender qual a origem das metodologias utilizadas hoje em dia.

Desde os primórdios da civilização é constante a busca por respostas para se entender os princípios das diversas questões relativas à vida. A razão áurea, ou número Phi, foi a "fórmula mágica" encontrada por arquitetos e artístas para representar a ordem matemática da perfeição, inclusive na natureza. Sua aplicação representava a medida da beleza, sendo utilizado através dos tempos, desde a construção do Pathernon ao trabalho de Le Corbusier, passando pelas pirâmides do Egito.

Essa procura pelas respostas acabou, então, por se concentrar na determinação de padrões matemáticos para todos os eventos possíveis. Assim nasceu a Teoria das Probabilidades, através dos trabalhos do francês Abraham de Moivre. Posteriormente, foi Adolphe Quételet quem desenvolveu esse tema em cima de seu l'homme moyen (o homem médio). Pelo estudo dos padrões obtidos através das médias de qualquer coisa que lhe cruzasse o caminho, Quételet acabou descobrindo que quanto maiores fossem os dados disponíveis, menores seriam os erros embutidos no processo. Dessa maneira, questões como altura do homem e o peso de bebês ao nascer acabaram sendo classificadas de acordo com padrões "normais", por ele estipulados em função das médias averiguadas. O problema começou quando Quételet resolveu implementar seus conceitos em questões sociais.

Taleb nos explica melhor como isso funciona. Para isso ele dividiu o mundo em duas vertentes distintas: o Mediocristão e o Extremistão. As características de cada "mundo" ditam se as práticas estipuladas pelo homem possuem chances reais de sucesso.

Mediocristão Extremistão
Não-escalável Escalável
Aleatoriedade moderada Aleatoriedade intensa (até superintensa)
O membro mais típico é medíocre O mais "tiípco" ou é o gigante ou anão, ou seja, não existe um membro típico
Vencedores levam uma pequena fatia do bolo Efeitos do tipo "o vencedor leva quase tudo"
Mais provavelmente encontrado em nosso ambiente ancestral Mais provavelmente encontrado no ambiente moderno
Imune ao Cisne Negro Vulnerável ao Cisne Negro
Sujeito à gravidade Não existe restrições físicas a um número
Corresponde (geralmente) a quantidades físicas (peso, altura, etc) Corresponde a número (riqueza, etc)
O mais próximo possível do que a realidade pode oferecer espontaneamente de igualdade utópica Dominada pela desigualdade extrema do tipo "o vencedor leva tudo"
O total não é determinado por uma única instância ou observação O total será determinado por um pequeno número de eventos extremos
Quando se observa por algum tempo, é possível saber o que está acontecendo É necessário muito tempo para que se saiba o que está acontecendo
Tirania do coletivo Tirania do acidental
Fácil de se fazer previsões a partir do que se observa e de estendê-las ao que não se observa Difícil de se prever a partir de informações do passado
A história se arrasta A história dá saltos
Eventos são distribuídos de acordo com a "curva na forma de sino" ou suas variações A distribuição ou é feita por Cisnes "cinzentos" mandelbrotianos (cientificamente tratáveis) ou por Cisnes Negros totalmente intratáveis

Assim, embora a metodologia disponível trate eventos do Extremistão com as técnicas destinadas ao Mediocristão, existe uma distinção clara e esta deve ser considerada para que seja possível uma abordagem mais prática e real.

De acordo com esses conceitos torna-se de extrema importância a percepção que no Extremistão acontecem saltos. Dessa forma, o mercado financeiro - que se localiza no Extremistão - apresenta características que não permitem a aplicação das metodologias de análise através de técnicas desenvolvidas a partir de conceitos como da Curva Gaussiana (o CAPM é um deles). Segundo Taleb nos últimos cinquenta anos, os dez dias mais extremos nos mercados financeiros americanos representam metade dos retornos.

Para o Brasil temos algo um pouco mais extremo, mas na mesma linha de raciocínio. Utilizarei a variação mensal pois não possuo dados diários para o mercado imobiliário. Se considerarmos o período de janeiro de 1999 até outubro de 2008 teremos o percentual de 113,91% para o somatório da variação mensal para o Ibovespa. Para os dez meses mais extremos de variação positiva temos 157,95%, enquanto para os dez meses mais extremos de variação negativa o percentual é de -138,81% (para ver os gráficos em uma imagem maior, basta clicar nos Links Diversos, ao lado).

variacao ibovespa

O somatório da variação total é bem menor do que aquela relativa aos dez meses mais extremos, mas isso acontece em função da alta volatilidade do mercado financeiro e do período escolhido. Quando analisamos os dados do mercado imobiliário essa diferença se apresenta mais gritante e salta aos olhos.

variacao imoveis

A volatilidade do mercado imobiliário, como era de se esperar, é bem menor do que a registrada pelo Ibovespa. Aqui, o somatório da variação para o mesmo período ficou em 15,29%, sendo que os dez meses mais extremos registraram altas de 111,67% e baixas de -106,17%. Pode parecer uma contradição - o mercado apresentar ao mesmo tempo uma baixa volatilidade e uma diferença maior entre os dias extremos e a média - mas isso acontece devido aos saltos de continuidade previstos para o Extremistão.

Com estes dados em mãos torna-se fácil agir como o "profeta do acontecido" e eu não pretendo me enveredar nesta direção; mas é preciso que se entenda que a diferença é gritante entre a metodologia proposta para um cenário específico, idealizado e estático (previsível); e o real.

Para resumir, de acordo com a "lei dos grandes números", a incerteza desaparece sob a média. Isso é um erro grave pois, segundo Taleb, "...medidas de incerteza baseadas na curva na forma de sino simplesmente desconsideram a possibilidade, e também o impacto, de grandes saltos ou descontinuidades e, por isso, não são aplicáveis no Extremistão...Apesar de grandes desvios imprevisíveis serem raros, eles não podem ser desconsiderados como outliers porque, cumulativamente, seu impacto é dramático demais". É interessante lembrar que o Modelo Black-Scholes não admite grandes saltos ou descontinuidades.

Existe ainda a questão da Análise Técnica, que continuava a me incomodar de maneira surpreendente. Não vou discutir questões menores sobre as técnicas de análise gráfica em si, nem a sua real influência; mas o fato de ser possível identificar tendências em um gráfico é sem dúvida uma idéia bastante atrativa e até, porque não, pode ser feita com relativa precisão. O que me incomodava era o fato de que, se estas técnicas são tão eficientes assim, porque os profissionais - analistas de risco, investidores, gestores, etc - perderam tanto assim nesses últimos meses (pra não dizer em tantas outras épocas da história financeira)? Porque eles não utilizam os conceitos expressos por essa metodologia?

É claro que eu não posso responder por eles, mas acredito que a resposta para esta questão se encontra em uma frase do sr. Luis Stuhlberger, a respeito do que ele definiu como o "instinto selvagem de felicidade", "...ganhar quando todos ganham, perder pouco quando todos perdem, não perder nada quanto todos perdem e, finalmente, o nirvana: ganhar quando todos perdem".

Segundo os preceitos da análise técnica, desde que você seja um investidor disciplinado e atue conforme as tendências de mercado, você se dará bem. O problema - para alguns - é que você acaba ganhando como o mercado, ficando longe de atingir o nirvana de Stuhlberger. Se isso não o incomodar, ótimo; pena que não podemos dizer o mesmo dos profissionais do mercado.

O trabalho deles consiste em prover cada vez mais retornos para seus clientes e suas empresas (corretoras, bancos, fundos, etc), não necessariamente nesta ordem. Dessa forma, investir conforme as tendências do mercado não é uma opção. É claro que em momentos de crise todos se penitenciam por não terem sido mais cuidadosos; mas se tem uma coisa que podemos aprender com o passado é que, em momento de intensa euforia financeira, o céu nunca é o limite.

Assim, eu faço parte daqueles que pensam que os culpados por essa crise não são o John ou o Bob, mas sim cada um de nós que procura lucros cada vez maiores. É latente a facilidade de se criar produtos financeiros novos para atender a ânsia crescente por lucros exorbitantes do mercado - leia-se investidores. Nessa onda surgem os derivativos lastreados em títulos sub-prime e tantos outros produtos podres em função de uma demanda gritante. Claro que quando o barco começa a afundar esses gatos vendidos por lebre não conseguem se manter e levam todos para o fundo, como o fez o fundo gerido pelo ex-presidente da Nasdaq Bernhard Madoff.

Segundo Taleb esses fatores são intrínsecos aos mercados e às nossas vidas e são imprevisíveis. Para todas aquelas coisas ou eventos que pensamos ser impossível de se tornarem realidade, existe a analogia do Cisne Negro: "Antes da descoberta da Austrália, as pessoas do Mundo Antigo estavam convencidas de que todos os cisnes eram brancos. Esta era uma crença inquestionável por ser absolutamente confirmada por evidências empíricas...(essa história) simplesmente ilustra uma limitação severa no aprendizado por meio de observações ou experiências e a fragilidade de nosso conhecimento. Uma única observação pode invalidar uma afirmação originada pela existência de milhões de cisnes brancos. Tudo o que se precisa é de um único pássaro negro."